— Se a senhora não ficar até quinta-feira, não teremos tempo para emitir o certificado — informou a garota solícita por trás do balcão.
Haveria um certificado? Simplesmente não tinha pensado no assunto; não colecionava mais esses documentos. Alcançara uma etapa da vida na qual as coisas deviam fazer sentido por si mesmas ou não serviriam para nada. Comprovar participação era irrelevante.
Pensamento libertador! Encher currículos para demonstrar competência deixou de ser necessário… Nada de estudar porque cai na prova, de fazer cursos para aumentar a empregabilidade, de sorrir para fazer networking, de comparecer para não pegar mal. Ler até o fim um livro ruim passou a ser tão inaceitável quanto ficar em frente à TV, zapeando.
Finalmente, a essência: hora do inventário, de espremer o currículo.
Dessas páginas todas, o que fez diferença? Certo: boa parte delas pagou as contas até o dia dez de cada mês. E depois? Boletos quitados mês a mês, sobrou o quê? Que tipo de pessoa foi construída com o passar dos anos? O que ela realmente sabe? Do que gosta? O que ama? A quem ajudou?
Hora de estabelecer prioridades. Há muito que aprender, e faltará tempo. Os certificados deixaram de fazer sentido.
Marla A. Lansarin, junho 2019.

