Vida e obra da sala de visitas

Antes de os telefones fixos se tornarem populares, as pessoas trocavam visitas. Funcionava assim: em um horário socialmente aceito, tipo início da noite ou meio da tarde, usando suas melhores roupas e bem perfumadas, as pessoas batiam à porta da casa de um amigo, conhecido ou parente. Surpresa!

Para essas ocasiões, as famílias dispunham de uma “sala de visitas”. Tratava-se de um cômodo reservado apenas para isso. A melhor mobília e as louças mais finas ficavam nele. As crianças não tinham permissão para entrar, pois o lugar devia ser mantido impecável. Na despensa, havia sempre o refrigerante, geralmente guaraná, e o doce das visitas. Era impensável que alguém chegasse e a família não tivesse algo especial para oferecer. Esses encontros duravam entre uma hora e meia e duas horas. Não mais. As guloseimas deviam ser servidas no meio do intervalo, pois sair logo após comer era considerado falta de educação.

Todos se acomodavam nos sofás, mas ‘com modos’: pernas cruzadas e costas eretas. Nada de se reclinar sobre as almofadas. As notícias eram trocadas tomando-se o cuidado de começar perguntando pela saúde dos familiares. A atenção era totalmente dedicada às pessoas que se deslocaram apenas para aquela conversa.

Terrível? Nem tanto. Havia a possibilidade (obrigação?) de vingança: dentro de um prazo razoável, o anfitrião deveria retribuir a atenção recebida e comparecer à casa daquele que o procurou. Dessa maneira, a amizade poderia durar para sempre.

Após a popularização dos telefones, passou a ser educado ligar antes de ir e, lentamente, os encontros foram sendo substituídos por telefonemas. Isso, somado à redução do tamanho das moradias, levou ao desaparecimento da sala de visitas.

Os costumes continuaram mudando: hoje é desejável enviar uma mensagem de texto antes de telefonar e falar ao telefone está ficando para ocasiões cada vez mais raras. As emoções devem ser expressas em até três linhas.

Mas, aguarde: essa história ainda não acabou! Tudo indica que a sala de visitas está de mudança para o metaverso. Lá será possível chegar sem aviso para conversar com os amigos. Só irão faltar os doces e o guaraná.

Marla A. Lansarin, julho de 2022.

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