Katharine Gun, tradutora do serviço de inteligência britânico, deparou-se com um memorando que revelava uma operação de espionagem destinada a obter vantagem na disputa pelos votos do Conselho de Segurança da ONU quanto à guerra do Iraque. Resolveu arriscar tudo — liberdade, família e carreira — para tentar impedir que a guerra ocorresse.
A saga dessa mulher está no filme Official Secrets (Segredos Oficiais, 2019), estrelado por Keira Knightley (Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito). O filme dá o que pensar, e esse é o meu critério para colocá-lo na categoria dos “bons”. Os quesitos usuais — fotografia, música e direção — contam menos na minha avaliação.
— Como somos ingênuos… — constata Kath, lá pelo meio da trama.
Doeu!
A verdade até passa pela cabeça das pessoas comuns, mas é tão inaceitável que é rejeitada na hora. Capaz! O sujeito mataria milhares de civis para ganhar uma eleição? E os outros chefes de Estado concordariam? Nada! Pura teoria da conspiração.
Ou: o governo russo está envenenando seus adversários, como nos filmes de espionagem do século passado? Aqueles tão previsíveis que quase ninguém vê mais? E o povo não faz nada? Deixa o sujeito lá? Besteira…
Olha só o nível da ingenuidade. Quando fiquei sabendo que havia desvio de verba da merenda escolar, acreditei ter presenciado o fundo do poço. Os caras estão roubando a merenda de criancinhas famintas! Ledo engano… Agora estão roubando respiradores de velhos moribundos.
Não me atrevo mais a indicar o fim do poço. O que é que eu não estou vendo agora?
Marla A. Lansarin, agosto de 2020.

