Recorte de Viagem: Lucerna

Chegamos exaustos na noite anterior e fomos direto da estação de trem para o hotel. Nossa experiência em Lucerna ainda estava limitada à janela do quarto e seriam apenas dois dias, sonhados com cuidado, minuto a minuto.

Era baixa temporada, e nos permitimos o luxo de um bom hotel, mimo impensável em qualquer outra época. O ambiente, arrumado com esmero, exerceu seu poder de compor o clima e desarmar nossos espíritos. Famintos, encontramos no local do café uma refeição, literalmente, internacional. Havia pratos típicos de vários países; pelo menos um para que todos se sentissem em casa. Fiquei enternecida pela gentileza, mas não estava interessada no conforto das coisas conhecidas.

Corremos, como duas crianças, diretamente da mesa para o local de onde partiria o catamarã. O sol fazia brilhar o Lago Lucerna e deixava a neve das montanhas que o cercam ainda mais branca. Enquanto a embarcação atravessava o lago, as cores de suas águas saíram do prata e lentamente alcançaram o azul marinho, espetáculo testemunhado com indiferença pelas construções históricas que enfeitam as suas margens.

O barco atracou no ponto de embarque para o funicular, um pequeno trem envidraçado que leva, viajando quase verticalmente, ao topo do Monte Bürgenstock. A montanha é coberta por pinheiros antigos, muito altos, cujos galhos estavam pesados de neve e, de quando em quando, se podia ver um pequeno chalé no meio deles. Era dia de aulas e algumas crianças, vestindo uniformes, viajavam sozinhas, na maior folia. Seus cabelos lisos e quase brancos, as bochechas vermelhas queimadas pelo frio e a paz de que desfrutavam, compunham a cena que, normalmente, só é possível ver enfeitando os antigos calendários.

Próximo ao topo, começou a nevar. Inicialmente eram pequenos flocos acompanhados pelo vento que balançava os galhos e derrubava a neve. Logo se transformaram em uma nevasca que formava uma cortina transparente, permitindo ver a floresta ao fundo. Quando desembarcamos, entorpecidos pela beleza, ficamos parados olhando para o céu com o lago aos nossos pés, sentindo o gelo no rosto.

Nosso primeiro contato com a neve.

Nessas ocasiões, meus sentidos se expandem para tudo ver, ouvir, cheirar e sentir. Fico querendo incorporar a experiência, vivê-la o máximo possível para que venha a fazer parte de mim. Aquele dia, na verdade, foi maior que eu e transbordou na forma de lágrimas.

Marla A. Lansarin, Abril de 2021

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