A desumanização da morte

Dezenas de covas vazias desfilam enquanto esperam pelos mortos.

Somos impedidos de ajudar aqueles que amamos enquanto o vírus rouba suas vidas. E leva, também, a oportunidade de retribuir os cuidados que recebemos, de pedir perdão pelas coisas, pequenas e grandes, que atormentam a nossa alma.

Dezenas de covas vazias desfilam enquanto esperam pelos mortos.

Também não pode haver qualquer ritual de despedida. Ossos com mais de dez mil anos, encontrados em cavernas, atestam a importância desses rituais para aqueles que ficam.

Dezenas de covas vazias desfilam enquanto esperam pelos mortos.

Não é possível abrir o esquife. Não há possibilidade de conferir quem está lá dentro, e a primeira fase do luto — a negação — fica estendida, talvez para sempre.

Dezenas de covas vazias desfilam enquanto esperam pelos mortos.

Os corpos são colocados em enormes covas coletivas e, assim, não haverá um lugar para visitar os que morreram. Orar e até conversar com quem se foi, diante do seu túmulo, poderia facilitar o processo de cura.

O número impensável de mortos gerou um tipo de defesa, como a de uma ferida que ainda não cicatrizou, mas já criou uma pequena camada de proteção. Não há como viver um luto diário e permanente pelos desconhecidos. E o perigo está por perto…

Dezenas de covas vazias desfilam enquanto esperam pelos mortos.

Marla A. Lansarin, maio de 2020.

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