Nesta semana vimos enormes filas, em todos os cantos do país, formadas, em parte, por pessoas que não votaram e descobriram que estavam com uma pendência vinculada ao CPF. Vê-las, tão longas, neste momento em que representam risco de morte, leva à reflexão.
Há uma lista de penalidades esperando por quem, além de não votar, não justifica a ausência nem paga a multa. Entre elas, estão o impedimento de obter carteira de identidade, renovar matrícula em estabelecimento oficial de ensino e obter empréstimo na Caixa Econômica Federal. Aqueles que estavam nas filas não haviam sentido falta de nada disso. Em grande número, não foram votar simplesmente porque se negaram a fazê-lo. No dia da votação, não é necessário trabalhar, a passagem de ônibus é gratuita e só não ficou sabendo que haveria eleição quem vive como um eremita.
Algumas pessoas escolheram não votar porque vivem em um mundo em que as necessidades não dão trégua e a preocupação com o macrocenário não é possível. Outras cansaram de acreditar em promessas e jogaram a toalha. Há aquelas que não se identificaram com nenhum candidato e acharam desperdício de tempo ir à seção eleitoral apenas para anular o voto. Também há as que não ligam, e pronto! Então, por que tentar obrigá-las a votar?
O argumento, à época em que foi instituída a obrigatoriedade, era que o voto facultativo favorecia o coronelismo. Posteriormente, houve quem defendesse que ele “ajudava o povo a adquirir consciência cívica”. Esses argumentos ainda são válidos? Caso contrário, a quem interessa o voto obrigatório?
Quando pessoas que não dão importância ao processo são obrigadas a votar, quem ganha são aqueles que trocam votos por camisetas ou os que elegem representantes de si mesmos, conduzindo, descaradamente, o voto de milhares de pessoas.
Muitas coisas estão sendo repensadas e serão modificadas quando a pandemia terminar. A obrigatoriedade do voto não deveria estar entre elas?
Marla A. Lansarin, 2020.
