A pandemia e a redescoberta da ciência

Estamos observando uma crescente valorização da individualidade, do que cada um sente, aprecia ou não, come e pensa: o self. Arrastado por essa onda veio o desmerecimento do conhecimento científico diante do conhecimento empírico, pois este último é adquirido por meio da vivência, do que é observado e livremente interpretado. O conhecimento científico foi sendo paulatinamente tratado como um daqueles objetos que são úteis, mas, se não os tivermos, tudo bem. Como uma bonita carteira: é melhor possuí-la; caso contrário, basta colocar o dinheiro diretamente no bolso.

O conhecimento empírico, no entanto, mostrou seus limites quando surgiu a COVID-19. Todos os olhares se voltaram para a ciência, e o vocabulário técnico invadiu o cotidiano. Conceitos como amostra representativa, estudo duplo-cego e modelagem de dados, para citar apenas alguns, passaram a fazer parte das conversas à mesa. Uma compreensão mínima do método científico é necessária para entender por que demora tanto para desenvolver uma vacina. A ciência transformou-se em esperança, e estudar voltou a ser importante, assim como ouvir pessoas que sabem — no sentido do saber formal — do que estão falando.

Valorizar quem produz ciência significa, antes de tudo, valorizar o estudo. Estudar, para alguns, é prazeroso; para outros, nem tanto. Para todos, porém, é um trabalho duro, que exige renúncias. Por mais que se ame um assunto, nem sempre se troca de bom grado um dia de sol ou o convívio com os amigos pelos livros. Essa escolha se torna ainda mais difícil quando esse esforço é menosprezado.

A revalorização do saber formal é uma das consequências desta pandemia, e não existe ciência sem professores e estudantes. Vamos nos lembrar disso quando a tormenta passar?

Marla A. Lansarin, maio de 2020.

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