Licença para ser antiga

Talvez seja pelo isolamento ou pelo esforço para reaprender tudo; estou antiguinha, sabe?

Quero

ver um filme leve, com final feliz, e ouvir uma música que tenha melodia e letra em poesia;

ficar morna ao sol, conversando de bobeira; nada de papo sério;

entrar numa papelaria e comprar uma canetinha, sem fila de distanciamento, cheiro de álcool ou medo de que alguém encoste em mim;

viajar. Não; planejar uma viagem;

ver um jornal sem covas, número de mortos ou enlutados também seria bom;

mais que tudo, ver minha velha mãe sem calcular, o tempo todo, se estou fazendo a coisa certa;

Antiguinha que estou,

chega de

desviar das pessoas que passam por mim na praça ou pensar que uma criança é um perigo. Ver aquela carinha de anjo e ter medo de chegar perto é surreal;

temer pela vida do meu filho só porque ele vai trabalhar. Pior ainda: fazer de conta que não vai acontecer nada. É demais;

ouvir a torcida do futebol sendo simulada por computador… É irônico, pensa bem;

ver mendigos na rua sabendo que vai piorar, porque isso leva a minha alma para o inferno. Mais doído, mesmo, é ter medo de abrir a janela para ajudar o infeliz.

Sou grata pelo que tenho, mas isso não impede minhas pequenas dores, que talvez sejam indevidas.

É, estou antiguinha. Deu para notar? Peço licença, cansei.

Marla A. Lansarin, Julho, 2020.

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