O dia da virada

Foi oficial: o presidente, em cadeia nacional de rádio e TV, informou ao povo que a pandemia havia terminado. Chega de distanciamento ou de máscaras; doem o álcool em gel. A notícia foi comemorada com buzinas, fogos, abraços, muitos abraços. As pessoas saíram às ruas apenas para aglomerar. Os artistas foram às praças para cantar, e o povo, para dançar. Em várias regiões do país foram organizados carnavais e, no Rio de Janeiro e em Pernambuco, eles duraram uma semana inteira. Estavam todos ébrios de alegria (e álcool).

Foi dado um prazo para os festejos e uma data para a vida voltar a ser como era antes. As festas foram encerradas com antecedência, prevendo o tempo necessário para que todos se preparassem para a volta ao normal. Assim, passada a euforia, as pessoas começaram a pensar no que ficaria conhecido como o “Dia da Virada”.

Uma das primeiras providências das famílias foi comprar novos uniformes para as crianças, pois os antigos não serviam mais. Foi nesse momento que apareceram os primeiros sinais:

Mãe, eu vou ter que vestir essa mesma saia todos os dias? E ficar sentada a manhã inteira? Só dez minutos para lanchar?

Procurando ignorar os protestos dos pequenos, as mães foram em busca do despertador em seus celulares, pois já não sabiam mais como ativá-lo. Os pais voltariam ao trabalho presencial, deixando por conta delas a rotina com os filhos, embora elas também fossem retornar ao trabalho. Como antes.

No Dia da Virada, o trânsito estava normal: parado. E as crianças chegaram atrasadas às escolas, pois os adultos não sabiam mais calcular a duração do trajeto.

O desconforto das roupas pouco práticas e levemente justas foi a primeira sensação daqueles que voltaram ao trabalho presencial, além da saudade da caneca vermelha, com café abundante, perfumado e forte. Haviam esquecido completamente que não era permitido ligar o rádio e que era necessário permanecer sentado, fingindo trabalhar, mesmo que a tarefa estivesse terminada. Tudo certo, pois haveria happy hour. Esse pensamento foi compartilhado por todos os cidadãos, resultando em uma fila gigantesca: o chope com os colegas foi cancelado, pois o cansaço não permitiu esperar por uma mesa.

À noite, quando chegaram em casa, correram todos para vestir seus pijamas, depois de um banho bem quentinho. Então, sentaram-se no sofá, abraçados às crianças, para aguardar a pizza, pois não havia sobrado energia para cozinhar, juntos e na maior folia, o jantar da família.

Marla A. Lansarin, Abril de 2021.

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