Por pura sorte, chegamos a Cannes durante o Festival de Cinema. Havia um frenesi no ar. Pessoas com trajes profissionais e enormes crachás caminhavam apressadas pelas ruas. Um homem (ator?), na casa dos setenta anos, sentado em uma cadeira de diretor à beira-mar, gravava uma entrevista. Uma mulher alta e magra, usando um vestido off-white e um chapéu todo drapeado, lembrando uma alface crespa, dançava em um bar. Pequenas barracas, todas brancas e iguais, colocadas lado a lado, cada uma com a bandeira de seu país, perfilavam-se ao longo da calçada. Gente possivelmente famosa, ou lutando para chegar lá, fazia ensaios fotográficos ambientados no festival. Mesmo as pessoas “comuns” usavam suas melhores roupas. Era fim de tarde e todos aguardavam os eventos da noite.
Fomos caminhando, sem pressa. Entre a calçada e o mar há um desnível de cerca de quatro metros, suficiente para que seja necessário usar as escadas para chegar à praia. Mas as escadas são cercadas e vigiadas por seguranças, já que dão acesso a bares muito exclusivos, que chamaríamos de “pé na areia”, se não fossem os tapetes e os saltos altíssimos. Bisbilhotamos o cardápio e o consumo mínimo era algo como cento e cinquenta dólares. Ainda não descobri como se chegaria ao mar sem pagar.
Passamos por um hotel, com aparência nem tão luxuosa assim, mas localizado de frente para a praia, a uma curta distância dos principais acontecimentos. Uma pequena multidão de fãs aguardava, pacientemente, a chegada de seus ídolos.
No final do caminho, encontramos o Palais des Festivals, onde se encontra o Grand Théâtre Lumière, local da exibição dos filmes da competição. Lá estava o famoso tapete vermelho! Não era possível caminhar por ele, claro. Esse é um privilégio reservado aos famosos. Eu imaginava um pequeno trilho, como o que se vê nas igrejas para a passagem da noiva, mas todo o hall de entrada é forrado de vermelho.
Em frente ao Palais, isoladas por uma corrente, encontramos centenas de… escadas. Sabe aquelas de alumínio, que ficam guardadas nas despensas das casas? Com dois degraus, cinco ou quantos forem necessários. As pessoas chegam horas antes da cerimônia, posicionam as escadas na calçada e aguardam a abertura do evento. Muitas são alugadas nas ferragens da cidade especialmente para a ocasião; outras viajaram com seus donos por várias horas. Há escadas acorrentadas às grades de isolamento para garantir o lugar enquanto o proprietário se afasta por alguns minutos.
Tudo por uma espiadinha em Meryl Streep ou em qualquer outra celebridade.
Relação interessante, essa.
O que faz uma pessoa idolatrar outra? A ponto de passar o dia pendurada em uma escada? Ou sentada à beira da calçada? Ou, literalmente, arrancar um pedaço de sua roupa?
A admiração será pela pessoa ou pela imagem que se faz dela?
Que vazio as celebridades conseguem preencher?
Marla A. Lansarin, agosto de 2026.






