Gostaria de ter escrito a coluna da Kika Gama Lobo da semana passada.* Tenho pensado muito sobre a velhice e, principalmente, sobre o tipo de velha que desejo ser. Para começar, não vou permitir que meu eu da terceira idade julgue a garota de 20 ou a mãe de 30. Não seria justo e não levaria a lugar algum. Ou pior: levaria a uma velha ressentida. Talvez o caminho seja lembrar o que eu considerava um “velho legal” quando tinha 20. Quais são as minhas referências para a velhice?
Poucas. Enquanto eu crescia, não havia comerciais com pessoas grisalhas correndo alegremente em um lindo parque após tomar um energético. Não havia velhice na mídia, pois apenas recentemente as empresas descobriram que essa gente existe e consome. De certo modo, os idosos não existiam publicamente; ficavam escondidos em casa. Assim, cresci e envelheci sem uma ideia razoável sobre a vida depois dos sessenta.
Isso melhorou? Parcialmente. Agora eles aparecem. Mas como?
O que vemos e ouvimos ainda é muito cor-de-rosa. É a velhice idealizada dos comerciais de TV, em que os idosos são perfeitamente saudáveis e suficientemente ricos, além de detentores de caráter e inteligência excepcionais.
Só que não.
Traficantes, assassinos e maus-caracteres de toda sorte também ficam velhos. O único que merece ser chamado de vovô é o pai dos seus pais: os outros idosos deveriam ser considerados estranhos pelas crianças, como qualquer adulto desconhecido.
Os idosos de filmes demonstram o mesmo vigor de seus filhos e, caso não o tenham, basta que suplementem a alimentação com o shake da moda. Não são obrigados a tomar qualquer medicação, exceto vitaminas e comprimidos azuis. Nada nos prepara para a decadência do corpo, que é completamente oculta pela sociedade. Como se, ao negá-la, deixasse de acontecer. É a política da avestruz.
Cabe à nossa geração construir uma ideia razoável de velhice, que comporte a verdade e, sobretudo, diferentes maneiras de envelhecer. Jovens pensadores independentes dificilmente irão se tornar velhos pasteurizados. Há quem se veja em uma varanda florida com um livro na mão. Para outros, um bocado disso, mas não uma eternidade inteira. Encontraremos os viajantes, os naturebas e tantos mais.
A sociedade teria que reconhecer todos esses tipos e prover suas necessidades. Para os leitores de varanda, tecnologia que não exija um manual de cinquenta páginas; para os viajantes, turismo preparado para corpos que já não têm vinte anos; para os naturebas, verde e sossego sem abrir mão dos recursos necessários. E, para todos, soluções que respeitem a individualidade e nos mantenham longe das casas de repouso pelo maior tempo possível — reconhecendo que, um dia, elas podem ser inevitáveis.
O primeiro passo, me parece, é aceitar que, embora existam necessidades coletivas, a velhice é individual. Há tantas velhices quanto há velhos. Ainda bem. Uma velhice pasteurizada seria um tédio.
Marla A. Lansarin, agosto de 2026.
* Kika Gama Lobo, Veja Rio, 18 de agosto de 2026.
