Dúvidas, muitas dúvidas

No Canadá, conheci uma igreja que foi transformada em biblioteca e outra que virou parte de um condomínio residencial. Vê-las gerou várias dúvidas, e passei a prestar atenção. Descobri que não se tratava de fatos isolados nem de um fenômeno canadense. Soube que, em Berlim, por exemplo, há uma que hoje abriga uma pista de dança.

Minhas interrogações cochilam, mas nunca morrem. Recentemente, o filósofo André Comte-Sponville lançou, em uma live, a seguinte pergunta: “O que resta do Ocidente cristão quando ele já não é cristão?” Foi o suficiente para que meus pontinhos acordassem, saltitantes e felizes. Claro que, como bom filósofo, acrescentou outras perguntas ao grupo, mas iluminou o tabuleiro.

Antes de tudo, a perda da fé é um fenômeno coletivo, algo que aconteceu a um número significativo de pessoas, mas não necessáriamente se aplica a um indivíduo em particular. Como coletividade, a pergunta essencial é: continuaremos civilizados — o contrário de bárbaros — sem que um Deus indique o que devemos fazer?

Para Comte, “faz vinte séculos que a humanidade selecionou os valores fundamentais que nos permitem viver juntos”. Para sermos uma sociedade, e não um amontoado de pessoas, é necessário que esses valores sejam compartilhados. Na sua opinião, não é o caso de inventar ou reinventar, mas de ser fiel aos valores que herdamos e transmiti-los aos nossos filhos.

Fidelidade aos valores que herdamos. É uma linha de pensamento tranquilizadora. Nada de renegar o passado; ao contrário, reconhecer sua importância e estudar a história. Se desejamos que a nossa civilização se perpetue, basta viver cultivando os bons valores, aqueles que nos trouxeram até aqui, e passá-los às novas gerações.

Ufa! Alguns pontinhos de interrogação estão indo cochilar um pouco. Vai sobrar tempo para cuidar dos outros.

Marla A. Lansarin, agosto de 2021.

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