Não são poucas as perguntas para as quais não encontro respostas satisfatórias. Entre tantas, as que tratam de certos comportamentos humanos, menosprezadas ou esquecidas pelos filósofos, são as que mais zombam de mim.
Um casal tira toda a roupa e se mete na densa floresta tropical, sem água potável, comida ou um mísero saco de dormir. Fica vinte e um dias sendo comido pelos mosquitos, alimentando-se de lesmas e mostrando o peito caído para o mundo. Se tiver sorte, termina apenas fraco, sem lesões permanentes. Recebe algum dinheiro por isso? Talvez, mas não o suficiente para explicar a façanha.
Outra mulher cria uma jararaca. Diferentemente dos outros pets, a cobra nunca vai retribuir com afeição os cuidados que recebe. Ao contrário, deixará a dona em permanente tensão e temendo pela própria vida, se tiver um mínimo de conhecimento sobre o animal. Fora o descontentamento dos vizinhos e o medo da polícia.
Diante desse tipo de comportamento, faço sempre a mesma pergunta: por quê?
Convivi com esse pontinho de interrogação até que reencontrei uma frase de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas:
As botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.
Eis que o velho Machado acaba de solucionar uma das contradições do comportamento humano: sofrer pela satisfação de se saber capaz de aguentar e, principalmente, pelo prazer que se segue ao fim do sacrifício.
Marla A. Lansarin, junho de 2021.
Revisada em agosto de 2026.

