Um rapaz sorriu vendo um vídeo no Tik Tok, usou um aplicativo para tranquilizar e enviar um beijo para sua mãe, invadiu uma casa, decepou as mãos de um avô e estuprou sua neta. O animal insano que habitava os corpos dos soldados de Hitler não morreu, apenas mudou de endereço.
O que somos? No ambiente certo e garantida a impunidade, os meus vizinhos fariam algo semelhante? Ou meus alunos? Ou os garotos que vi crescer? Ou… eu? Nem consigo pensar. Será que todos temos um botão que pode ser girado para o modo demônio? Como e porque ele gira?
No modo demônio, a alma abandona o corpo? Ela retorna? Se e quando volta, como convive com os fatos ocorridos na sua ausência? Aquele jovem, uma vez em casa, vai para a aula planejando a formatura? Vai casar e cortar o bolo com a mão da noiva sob a sua? Tendo sido acionado, esse botão volta a posição original?
Como antes, as pessoas e nações que não estão diretamente envolvidas demoraram para reagir: o mundo olhava, incrédulo, as imagens dos tanques avançando sobre os jardins. Os discursos, na ONU, se estenderam por dois dias, tempo mais que suficiente para um exército atravessar a fronteira. A reação, quando finalmente ocorreu, foi no plano econômico, respaldada pela máxima precaução e ações humanitárias. Enquanto isso, uma nação foi sendo destruída. Agora, as valas comuns e as evidencias de tortura. Como antes.
Aconteceu, foi horrível, inaceitável, pertence ao passado e lá ficará. Essa era minha posição sobre os horrores cometidos na Segunda Guerra; até Bucha.
Marla A. Lansarin, abril de 2022.
