Eta palavrinha! Termina com qualquer possibilidade. Sentencia. Lacra.
Por vezes, é redentora: nunca teremos uma guerra ou meu filho nunca vai se envolver com drogas. Nuncas maravilhosos que nos livrariam dos nossos piores medos. Preocupação zero. Só que esses salvadores são utópicos e o melhor que podemos esperar é ‘isso provavelmente não acontecerá’. Contente-se com a estatística.
Há, porém, os outros nuncas: os que acabam com nossos sonhos e têm, como pior característica, a de se reproduzirem mais rapidamente à medida que envelhecemos. O tempo passa e os danados vão nascendo. Coisas que pareciam (e talvez fossem) perfeitamente possíveis aos quinze anos se tornam nuncas aos sessenta. Exemplo? Viajar para o espaço e ver a Terra azul. Certo; usei um sonho de adolescente, impossível para todos os mortais por mais meio século. Mas que tal saltar de paraquedas aos setenta? Com as economias que foi possível acumular até o momento, conhecer o Alasca? Cantar para uma multidão e todos imitarem seus trinados à moda Freddie Mercury? Ou fazer uma entrada triunfal em uma piscina usando um biquíni mínimo? Se você não foi paraquedista a vida inteira, já não é um cantor de sucesso, não fez a sua entrada até os 30, ou não ficou bem rico, lá vem ele, o nunca.
Algumas religiões oferecem uma fuga da sentença. Com vida eterna, ou em muitas encarnações, é possível fazer qualquer coisa. Não deu nessa vida? Em duas ou três deve acontecer. Para mim, serve. Entristece menos quando vislumbro a possibilidade de ter outra chance. Queria muito ter merecido o Nobel. Sim, essa é a minha lua.
Outra característica desses monstrinhos é doerem de forma diferenciada para cada pessoa. Há quem lamente muito não ter usado aquele biquíni e também quem nem pense no assunto. Qual é o nunca que sempre incomoda você?
Marla A. Lansarin, Agosto de 2022.
