Saímos de Tóquio ainda procurando a alma do Japão. A capital é cosmopolita, marcada pelas multidões e lojas de departamentos; queríamos sentir o país dos filmes, das gueixas e da gentileza suave. Com esse espírito, chegamos a Kyoto, a cidade dos mil e seiscentos templos.
No primeiro dia, percorremos a Sannenzaka, a Ninenzaka e a Kiyomizuzaka, ruas históricas que levam ao Kiyomizu-dera, um dos símbolos da cidade. Subimos uma ladeira coberta de pedras observando as fachadas e as casas tradicionais de madeira, vendo artesanatos, quimonos, leques e provando doces japoneses. Comemos uns bolinhos servidos em um copo todo enfeitado, que devem ser degustados com geleia de morango. Os gaúchos os chamariam de minissonhos.
Ficamos curiosos ao ver um grande número de pessoas degustando um sorvete verde e notamos que, além dele, havia bolos, balas, rapaduras e tudo o que a imaginação pudesse alcançar em variados tons da mesma cor. Um chá verde em pó, o matcha, é usado para fazer muitos quitutes, pois é produzido a partir da Camellia sinensis, cultivada nos arredores de Kyoto.
O pagode Koyasu nos recebeu lá no topo da colina. Seus tons vermelho-alaranjados contrastavam com o céu azul e, ao vê-lo, sentimos pela primeira vez que estávamos no Japão. A construção, como um todo, lembra um homenzinho com três chapéus e ficamos esperando que se inclinasse levemente para nos cumprimentar.
Em um dos pavilhões do templo existe um desafio, uma prova que visa testar força física, determinação, persistência e sorte. O visitante deve levantar três pesos, dois fáceis e um quase impossível, que parece ser a réplica de um bastão de guerra (kanabō). Os homens fazem fila, na esperança de ser aquele que vai conseguir erguer o último. Os vitoriosos são aplaudidos pelas pessoas que se aglomeram para observar.
As encostas do Monte Otowa são cobertas por bosques nativos e o templo foi construído para integrar-se à paisagem. O nome Kiyomizu significa Água Pura e deriva da cachoeira, considerada sagrada, cujas águas correm pela encosta da montanha. É possível deixar o templo descendo pelo bosque, usando um caminho que passa por ela, aderindo à proposta de paz junto à natureza. Muitos visitantes bebem dessa água acreditando que traz longevidade, sucesso nos estudos e realização pessoal.
A maior beleza do Kiyomizu-dera, no entanto, é roubada de Kyoto: de seus jardins descortina-se a cidade, aninhada entre montanhas e anunciada pelas cerejeiras. Uma bandeira tremulava atrás do templo e, abaixo dela, mulheres usando quimonos indicavam que, por fim, havíamos encontrado a alma do Japão.
Marla A. Lansarin, Junho de 2026





