Lembra daquela vez em que, sentindo ser seu dever e cheia de dedos, você alertou sua amiga sobre uma situação constrangedora? Ou quando informou seu colega de trabalho sobre a encrenca em que estava metido? Eles ficaram gratos e acabou tudo bem?
Se sua resposta foi sim, você deveria comprar um bilhete de loteria. Convenhamos, a chance desse tipo de “ajuda humanitária” acabar bem é mínima. Mesmo que tenha simulado gratidão, provavelmente a pessoa envolvida não voltou a te olhar da mesma maneira: ou interpretou mal ou ficou muito envergonhada.
Assim, para não perder aquela amiga, talvez seja melhor ficar calada. Ela poderia te acusar de ter percebido e não a ter alertado, mas isso é pouco provável e mais fácil de contornar do que a vergonha que ela vai sentir toda vez que te olhar. E deixá-la passar por um enorme constrangimento? Isso lá é amiga? Bem, você gosta dela o suficiente para arriscar perdê-la?
Há uma lista enorme de coisas que não dizemos, por mais que nos perturbem, irritem ou corroam o estômago. Por amor, compaixão, gentileza ou empatia, calamos. Melhor assim. Afinal, qual a garantia de estar certo? É possível relativizar quase tudo, em especial as coisas pequenas e irritantes. Há países em que é falta de educação não arrotar depois da refeição.
Em algumas situações, ficamos em silêncio por medo. A polarização e o politicamente correto conseguiram nos amordaçar. Se você usar as palavras erradas e for mal interpretado, será cancelado, ridicularizado ou coisa pior. Vão acabar com você.
Somando tudo, não tem jeito: o mais prudente é silenciar. Se for mesmo dizer, vale um pequeno ensaio. Afinal, sempre aparece uma boa oportunidade para… ficar calado.
Marla A. Lansarin, agosto de 2022.
