Um zilhão de gotas d’água, juntas, afogam uma pessoa. Pequenos aborrecimentos também. Às vezes, o dia perfeito é aquele longe do mundo: ninguém faz perguntas, invade o seu espaço, repara na sua roupa, sente o seu bafo ou interrompe a leitura. O dia do sumiço. Como se consegue um deles? Bem, como tudo que é bom, dá trabalho e tem alguns perigos. Mas, se você seguir o passo a passo que estou entregando de barbada, vai valer a pena.
Primeiro, o trabalho. É necessário escolher o momento muito bem, pois perder o emprego seria um preço alto demais. Há duas possibilidades: tire férias (risco zero, mas pouco prático) ou alegue estar doente (covid não funciona: é tempo demais, e a luta é por apenas um dia).
Segundo, para os familiares que não moram com você: informe que foi escolhido para realizar um trabalho em outra cidade. Lembre-se de escolher um lugar conhecido, para evitar trapalhadas nas conversas quando “voltar”.
Terceiro, decisão crucial: você deseja ficar na sua casa ou apenas em paz? Se qualquer lugar serve, é fácil: “vá trabalhar em outra cidade”. Tome o cuidado de compatibilizar as cidades, sair com uma roupa adequada para o trabalho e levar alguma outra que seja mais confortável. Se o seu sonho é ficar em casa, terá que armar tudo e deixar engatilhado para quando todos estiverem fora. Fique atento: esse dia vai chegar!
Quarto e muito importante: informe aos colegas, amigos e parentes que o seu celular foi roubado e que você irá avisá-los quando adquirir outro.
Se você seguiu o manual, está incomunicável: ninguém irá chamá-lo, mas você também não poderá chamar ninguém, ou todos saberão que “armou essa”.
Como pretende usar suas doze horas de completa solidão?
Marla A. Lansarin, maio de 2022.
