A confusão em que estamos metidos

Imagine um menino que fez uma enorme coleção de miniaturas de carros: sabe aqueles de metal, com rodinhas, direção, câmbio e tudo? Esses.

Bem, o nosso garoto gosta de manter seus carrinhos meticulosamente arrumados em um conjunto de prateleiras especialmente desenhadas para esse fim, ordenados por categoria, potência do motor e ano de lançamento. Sempre que ganha um novo modelo, faz uma pesquisa e o coloca na posição correta. Sua coleção é motivo de admiração entre os amiguinhos e lhe garante um lugar confortável na cadeia alimentar da escola.

Mas, certa feita, o guri esquece a porta do quarto aberta e a irmãzinha, tentando pegar o carrinho vermelho, usa as prateleiras como escada. A estante, claro, desmorona. O irmão mais velho chega da escola e encontra todos os seus tesouros misturados sobre o tapete, embaixo da cama, espalhados pelo corredor, alguns até sem as portinhas.

A agonia do garoto diante do trabalho de decidir novamente a posição correta de cada um dos seus tesouros é uma boa analogia para a angústia do homem contemporâneo diante do questionamento dos valores que a civilização ordenou meticulosamente, por importância, durante séculos. Um componente crucial do que o filósofo Luiz Felipe Pondé chamou de “caos contemporâneo”.

A geneticista Mayana Zatz relatou* um caso, muito discutido entre os profissionais da área, em que um casal portador de surdez causada por uma condição genética consultou um especialista desejando implantar um embrião especialmente escolhido para que a criança nascesse… surda! 

O casal argumentava que a comunicação com o futuro filho seria mais fácil e que a criança teria direito ao silêncio.

É evidente que não iremos discriminar as pessoas surdas, mas isso significa ignorar as dificuldades que elas são obrigadas a enfrentar? O ideal não seria reconhecê-las e oferecer-lhes auxílio?

Não discriminar significa “naturalizar” a condição a ponto de desejar a surdez para um filho? Ou o nanismo? Ou a cegueira? 

Usualmente, quando pensamos em seleção de genes ou de embriões, nos defrontamos com a possibilidade da criação de uma raça “melhorada”. Isso significaria enxergar perfeitamente, ter ouvidos mais apurados e um olfato comparável ao dos cães; ou não? 

Ainda não decidimos, coletivamente, o que significa “melhor”.

Não seria muito cedo para brincarmos de Deus?

Marla A. Lansarin, agosto de 2022.

 

* Palestra para o Fronteiras do Pensamento, on line, em agosto de 2022.

Posts Similares

  • Estudar dá trabalho

    Vou logo informando que uso vídeos, exercícios individuais, projetos em grupo e tudo o mais que acredito ser capaz de motivar os alunos e facilitar o aprendizado. Para estar disponível, criei um grupo de WhatsApp com os alunos. Assim, não me cancele. Para traçar um paralelo, vamos imaginar que você deseja ficar “em forma” para…

  • Velho Machado

    Não são poucas as perguntas para as quais não encontro respostas satisfatórias. Entre tantas, as que tratam de certos comportamentos humanos, menosprezadas ou esquecidas pelos filósofos, são as que mais zombam de mim. Um casal tira toda a roupa e se mete na densa floresta tropical, sem água potável, comida ou um mísero saco de…

  • Vida e obra da sala de visitas

    Antes de os telefones fixos se tornarem populares, as pessoas trocavam visitas. Funcionava assim: em um horário socialmente aceito, tipo início da noite ou meio da tarde, usando suas melhores roupas e bem perfumadas, as pessoas batiam à porta da casa de um amigo, conhecido ou parente. Surpresa! Para essas ocasiões, as famílias dispunham de…

  • Só um pouquinho

    Mas isso deve estar uma delícia! Os morangos são novos, o marshmallow puxa-puxa, que gruda no céu da boca, e ainda o doce de ovos. Por baixo, umas mil calorias por fatia, a cota do dia todo: café, almoço e jantar. Onde eu estava com a cabeça quando resolvi aceitar esse convite? Também não dá…

  • |

    Certa cegueira

    Katharine Gun, tradutora do serviço de inteligência britânico, deparou-se com um memorando que revelava uma operação de espionagem destinada a obter vantagem na disputa pelos votos do Conselho de Segurança da ONU quanto à guerra do Iraque. Resolveu arriscar tudo — liberdade, família e carreira — para tentar impedir que a guerra ocorresse. A saga…

  • Sobre a barbárie

    Minha primeira reação foi de horror e total empatia pela vítima. Como se ser abusada durante anos não fosse desgraça suficiente, a pobre criança ainda passou pelos enjoos da gravidez, um parto (sim, os médicos induziram o parto), uma curetagem, foi aterrorizada por um grupo ensandecido e chegará à idade adulta estigmatizada. O inferno é…