O enfermeiro caminha apressado em direção à paciente que está sendo trazida de maca, tossindo muito. Carrega um cilindro de oxigênio e considera a possibilidade de administrar um I45 injetável na mulher, que não soltava um envelope pardo. Calcula que ela deve estar na casa dos cinquenta anos e, se não for cardíaca, pretende aplicar a dose usual.
Para dizer a verdade, o prédio era feio: do tipo funcional, geralmente construído para habitações populares ou órgãos do governo, como era o caso. Tinha nove andares, ocupava a metade da quadra e já não era possível identificar a cor da fachada. Naquele momento, as labaredas que saíam pelas janelas do quinto andar tinham altura suficiente para chamuscar os parapeitos dois níveis acima. O caminhão dos bombeiros estava parado na avenida, bloqueando o trânsito. Três homens seguravam uma mangueira cuja água tinha força suficiente para atingir os pisos mais altos: um derradeiro esforço para conter as chamas que consumiam os arquivos públicos. Uma dezena de pessoas era atendida pelos paramédicos ali mesmo, na calçada. Tosse, choro, lamentos, cheiro de fumaça, mas ninguém seriamente ferido.
Ainda bem, pensou Rosália. A tudo assistia acomodada no guichê de recepção do estacionamento pago, localizado em frente ao edifício. Para poder ficar naquela posição, tinha fingido atender as ordens de um bombeiro, rapaz bonitão, que exigira que fosse para casa. Foi fácil: pediu alguns minutos para buscar suas coisas e o homem, impaciente, resolveu confiar nela e ir embora. Quando se viu só, fechou a porta, o vidro da janela e transformou em tiras o pano de limpeza, as quais usou para tapar todas as frestas que enxergou.
Rosa, como costuma ser chamada, conhecia boa parte das pessoas que trabalhavam no grande edifício, aquelas que eram mensalistas, e olhava atentamente cada rosto, procurando relacionar os carros com seus proprietários. Sentia que deveria avisar caso alguém estivesse desaparecido.
Em especial do quinto andar, admirava a doutora Ana Maria, especializada em sinistros de trânsito, que tomara um tempo para lhe falar sobre o trabalho em “home office”, e a permanência apenas dos plantonistas no local. Quando soube o que ela fazia, usou o celular para procurar o significado de “sinistro”.
— O incêndio é um sinistro. Droga de palavra!
Além dos mensalistas, alguns clientes eventuais usavam tanto o estacionamento que Rosa já os considerava amigos: oferecia um cafezinho, dava conselhos e os atualizava sobre as fofocas locais. Uma semana antes, após conversar muito tempo com o seu Henrique, resolvera diminuir a quantidade de café para poder dormir à noite. Ele contou que vinha atender aos chamados de um delegado de polícia; alguma coisa relacionada às fotografias que haviam sido descobertas recentemente. O pobre usou a vaga treze por tantas horas, que nem podia pagar.
— Tive que aceitar um cartão, no crédito, arriscando uma bronca. Fiz o certo.
Um pouco antes de os bombeiros serem chamados, ela o tinha visto chegar, a pé, usando um boné e olhando disfarçadamente para o outro lado.
— Esquisito... Coitado, tava com vergonha de mim.
Seus devaneios foram interrompidos pelo desabamento de parte da estrutura do edifício, e Rosa começou a sentir remorsos por não ter obedecido ao bonitão. Pensou em correr, mas, enchendo-se de coragem, decidiu não abandonar sua missão.
Pobre da doutora, chegando de maca na ambulância. Que angústia aquela tosse! Sentiu um pequeno tremor nos músculos da face. Apressada, foi revisar todas as frestas.
Marla A. Lansarin, Setembro de 2021.

