Constatou que o terno cinza-chumbo estava amassado e com cheiro de guardado. Teria que deixá-lo em melhor estado ou levantaria suspeitas. Não passava roupas desde a defesa de sua tese, mas sabia que faria um trabalho razoável. Grande dia, aquele. Se não houvesse treinado à exaustão, as frases teriam saído desconexas no início da apresentação que precedeu a arguição pela banca. No entanto, passados os primeiros minutos, a necessidade de discutir os resultados, mostrar suas ideias e falar, principalmente falar, com pessoas capazes de entendê-lo prevaleceu, transformando o que deveria ser um ato solene em um grande final, único em sua vida. Algumas vezes, em sala de aula ou proferindo uma palestra, quando sentiu que compartilhava com outros a magia das ideias, chegou perto de reviver aquele momento, perto.
Onde será que Mirta guarda o ferro de passar? Na área de serviço? Mas onde? Estivera grande parte da vida envolvido com aulas. Estudara até o limite, montara slides, listas de exercícios e provas, esperando pelo aluno certo. Aquele estudante que aparecia uma vez a cada ano, um em cada cem, que demonstrava curiosidade. A genuína necessidade de entender que permitia construir a ponte entre o mestre e o discípulo.
Finalmente encontrou o ferro no armário comprido perto da janela. 220 V? Quem teve a ideia de comprar um ferro 220V numa cidade em que tudo é 110 V? Qual das tomadas? Siga a lógica: deve estar próxima da tábua de passar. No início daquele semestre, sentado de modo a ter visão completa e nítida do quadro, distinguindo-se pela enorme estatura, estava Bernardo, um em cada quinhentos. Ao término do primeiro mês de aulas a ponte estava formada, sólida. Pediu permissão para conhecer o Laboratório e, de visita em visita, foi aprendendo com os bolsistas e não foi mais embora.
Isto! Ao lado da tábua. Ferro a vapor, está sem água. Bernardo integrou-se ao Projeto Futuras Gerações com uma dedicação que beirava a obsessão. Muitos experimentos bem planejados e repetidos até que resultados críveis fossem alcançados. Reuniões: inúmeras e eternas, para deleite do mestre. Adorava acompanhar a clareza do seu raciocínio, interpor obstáculos, interpretar resultados e, em algumas preciosas ocasiões, descobrir a solução em uma só voz. Um duo perfeito.
Não coloque o ferro quente diretamente sobre o terno. Pegou um pano de pratos branco e limpo na gaveta da cozinha. Mirta nunca entendera completamente o prazer de dar à luz às ideias. No primeiro olhar, nada: apenas o verde monocromático de um gramado grande e plano. É necessário observar atentamente cada raminho, cada mínimo desnível do terreno e… et voilà! Um fiozinho de fumaça! Então, começa-se a cavar, delicadamente, pouco a pouco, e uma pequena brasa surge, com seu calorzinho. Hora de soprar com cuidado e, se tudo tiver sido feito corretamente, com perfeição, nasce uma linda, brilhante e multicolorida labareda. Completo êxtase, maior ainda quando compartilhado. Mirta, na verdade, não está sozinha na sua estranheza.
Primeira manga, segunda manga, contornar os botões. Pronto. Vestiu-se e observou um velho senhor metido em um terno muito folgado, que parecia maior ainda, já que a moda ditava slim fit. Submeteram o Futuras Gerações e os louros começaram a aparecer… para Bernardo! Jovem, inteligente e carismático, roubara todos os créditos. Meu projeto. Minha ideia. Aquela destinada a me distinguir da turba.
Gravata preta? Metalizada? Afinal, qual seria a gravata adequada para discursar no funeral de seu melhor aluno?
Marla A. lansarin, Abril de 2020.

