Pequena agonia

 

‘Amole, estou muiiito bem… só sem bateria’. Recebi essa mensagem quando já era relativamente tarde, estava escuro, chovia e eu começava a olhar para o relógio. A mensagem deveria tranquilizar, mas era vaga.

Estaria dirigindo para chegar em casa? Resolvera passar a noite lá? De uns tempos para cá, ele pega no sono quando está dirigindo. Comecei a torcer para que tivesse resolvido ficar. Ok. Mas como eu ficaria sabendo? Não chegar, simplesmente, não garantia que estivesse em segurança. Ele tem, pelo menos, três carregadores para o telefone e tomei providências para que um deles estivesse sempre no porta-luvas. Que ilusão. O cara é do tipo que não tem lugar para nada. Certamente não encontrou os outros dois e tirou do carro aquele que deveria ser a segurança. Se fosse o caso, não teria como pedir ajuda.

Mas que diabo! Jurei que não ficaria velha e paranoica, do tipo que só pensa o pior. Controle-se, seja racional.

Lembrei que tinha as fotos de uma crônica do Raphael Montes, na qual ele recomenda muitos livros policiais de autores para mim,desconhecidos. Havia decidido ler todos eles. Alguns dos volumes não estavam disponíveis em e-book na língua portuguesa e nada se compara ao prazer do próprio idioma. Acabei encontrando dois dos livros recomendados e baixei as amostras. A primeira não me convenceu: fraco, coisa de principiante. A segunda me prendeu. Comprei o livro em um clique. Adoro fazer isso; sinto que estou em um futuro totalmente civilizado, onde as pessoas alcançam seus livros instantaneamente. Isso é evolução.

Ótimo. Vou ficar absorta até ele chegar, ou ficar claro que não vem, caso em que terei lido até “apagar”.

Os livros, sempre eles. São minha salvação para o tédio, para a vida social (sempre proporcionam algo interessante para falar) e para a manutenção do equilíbrio.

Basta mudar de mundo para não pensar bobagem, não ver o tempo passar e fazer o que manda a razão.

A história permite acompanhar a personagem enquanto busca o assassino e constrói um caminho para a própria vida. Denso. Convincente.  Mas essa opinião é prematura, já que ainda não cheguei ao fim e, em um policial, o encerramento é determinante.

Um capítulo, dois, três… Meus olhos começaram a arder: meia-noite. Ele não chegou. Apaguei.

Acordei pouco depois das seis, consciente da sua ausência.

Bah! Se ficou por lá e continua sem telefone, vou ter que passar o dia esperando: só chegará ao anoitecer, supondo que nada tenha acontecido. Deixa de ser histérica. É só manter a rotina. Café, muito café, trabalho, e-mails, e assim vai.

Fiquei pensando como foi a vida antes do celular. O normal era não ter informações e todos confiavam na providência e no discernimento uns dos outros. As mães esperavam, pacientemente, os filhos chegarem da escola. Nada de desespero. Sem avisos do tipo ‘vou me atrasar’. As crianças chegavam um tanto mais tarde e pronto. A violência era menor? A ingenuidade era maior? Ou simples adaptação a uma realidade naquele momento imutável? Nós, habitantes do século XXI, estamos acostumados à satisfação imediata; informação instantânea, um livro em um clique. Perdemos a capacidade de controlar nossa imaginação e os nossos medos?

Entre trabalhar e filosofar, o tempo foi passando e chegou a hora de ler os e-mails, rigidamente fixada no final da manhã. “Amole… tô morto de cansado e vou dormir por aqui, no hotel de sempre. Beijão”. O danado estava com o computador e, em lugar de usar um telefone fixo (acho que nem lembra que existe), enviou um e-mail. Não me ocorreu que ele pudesse estar com o computador e cansado a ponto de escrever uma mensagem em lugar de ligar.

E eu estive à beira de fazer uma cena.

Marla A. Lansarin, Novembro de 2020.

Posts Similares

  • O discurso

      Constatou que o terno cinza-chumbo estava amassado e com cheiro de guardado. Teria que deixá-lo em melhor estado ou levantaria suspeitas. Não passava roupas desde a defesa de sua tese, mas sabia que faria um trabalho razoável. Grande dia, aquele. Se não houvesse treinado à exaustão, as frases teriam saído desconexas no início da…

  • Todo ano a mesma coisa

      Colocou os dois caixotes lado a lado, cuidadosamente nivelados. Eram feitos para frutas, mas iriam aguentar. Abraçou o fogão na altura do forno e o ergueu com relativa facilidade, colocando-o sobre o suporte improvisado. Cuidou para que os pés de sustentação coincidissem com os cantos, a parte mais resistente das caixas. Então, olhou ao…

  • Encerrando um ciclo

      Foi até o quarto pegar a mala guardada embaixo da cama. Escolheu a maior do conjunto. Essa deve servir; só está muito cheia de pó. Sem problemas. Foi em busca de um pequeno balde, onde colocou água, um pouco de álcool e uma colher de sopa de amaciante de roupas, só pelo perfume. Encontrou…

  • Em uma casa muito grande

    — Dona Margarida, se a senhora não me chamar três vezes na semana, não dô conta! A casa é muito grande. A diarista — como é o nome dela mesmo? — está certa. Na prática, quatro andares: a garagem no subsolo; a sala de visitas, a cozinha e os quartos no nível da rua; no…

  • Hora de decidir

      Calma. Calma. Respira. Sem decisões precipitadas. O que eu poderia fazer? Agi no susto, isso sim. Que droga, tomei duas doses! Náuseas, agora. Senta. Grama molhada; azar. Acorda, guria! vai sair daqui algemada. Ok, mais um minuto. Podia chamar o Beto. Não. Péssima ideia:vai surtar. Ninguém para confiar. Vou ter que sair dessa sozinha….

  • Haroldo, o hamster

    Acordava cedinho, tomava banho de areia, comia sua ração e ia direto para a roda. Corria durante algumas horas, parava um pouquinho para matar a fome e voltava a correr. Ao anoitecer, jogava-se em sua caminha de serragem e ficava olhando o brilho da TV pela fresta das grades, mas não por muito tempo, pois…