A biblioteca de Salamanca

Na comunidade de Castilla y León, a 220 km de Madrid, está Salamanca. A cidade é um encanto, mas inesquecível, mesmo, é a Biblioteca General Histórica de la Universidad, a mais antiga da Europa. Para aqueles que amam os livros, é uma experiência única. Suas longas mesas em madeira maciça são emolduradas por estantes ricamente entalhadas e repletas de exemplares preciosos. Entre as mesas, suportados por pedestais, encontram-se globos que mostram o mundo até então conhecido. Sabe-se imediatamente o valor que foi dado ao conhecimento. Com os pés no mesmo chão que foi compartilhado por gerações de pensadores é possível sentir suas presenças.

Essa biblioteca foi fundada em 1254 por Alfonso X, el Sabio. Veja bem, 1254! Passada a emoção inicial, a data começa a ricochetear na sua cabeça. Nesse ano nem havia Brasil; não estávamos no mapa. Nossa terra era esparsamente habitada por pessoas que não haviam descoberto a escrita.

Em 1580 a Universidade de Salamanca admitia 6.500 alunos por ano. No Brasil, Universidade, reunindo várias Escolas, só em 1920 no Rio de Janeiro. Não se trata de um gap que pode ser vencido facilmente. As civilizações, como as pessoas, têm um ritmo próprio de evolução. É necessário um amadurecimento coletivo, que requer tempo.

Nós, como população, não tivemos esse tempo. Ainda hoje, um imenso número de pessoas está compreendendo que existem muitas nuances entre a direita e a esquerda; que não nasceu alguém que detenha todas as respostas e que, como humanidade, ainda não fomos capazes de desenvolver uma vacina para poder voltar à vida que tínhamos. Pior: não há volta para aquela vida, porque muitos novos valores e melhores rotinas foram incorporados.

Em alguns países, essa realidade pós-pandemia chega a ser uma sequência natural para o caminho que vinha sendo traçado. O trabalho remoto e a vida sem relógio de ponto estavam se estabelecendo. Já existiam mecanismos oficiais para o acolhimento da população em situações de emergência e, principalmente, a ideia do ‘bem coletivo’, da atitude que beneficiará a todos, estava mais madura.

Todas essas coisas, para nós, são uma abrupta ruptura que gera, muitas vezes, medo e revolta. Sempre que leio jornais, acompanho noticiários ou testemunho uma opinião raivosa, lembro da biblioteca de Salamanca e penso como seria justo se ainda nos chamassem de Novo Mundo.

Marla A. Lansarin, Junho, 2020.

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