O cotidiano na China

Na China, fui obrigada a aprender o básico, novamente. Começando pelo uso dos “talheres”. Sim, vim para cá sem saber usar os hāshis (ou kuàizi, como são chamados aqui). Levei um tempo, durante o qual me acostumei a deixar a mesa com um pouco de fome. Quem come sushi com os dois pauzinhos e pensa que está abafando nunca tentou comer noodles (uma massa de fio muito longo imersa em caldo ralo) ou arroz com molho de carne.

Resultado: a comida caía de volta no prato, antes de chegar à boca, para a diversão da plateia, já intrigada com os meus cabelos brancos. Uma senhora chinesa, observando meus esforços, sorriu solidária e veio me ensinar, como se eu fosse sua filha…

E aí apareceu o primeiro encanto da China: a gentileza, a prestatividade e a curiosidade quase infantil do seu povo.

Como usar o metrô? E para chamar um táxi? Nada disso: prefira um Didi, que é muito bom! O “Uber” da China é popular, organizado e, nos aeroportos e estações de trem, possui espaços designados e sinalizados para chegar e partir. Os carros são elétricos e os preços amigáveis. Difícil foi aprender a maneira certeira de indicar o lugar para o motorista vir buscar, estando no meio da cidade. A barreira da língua é real e poderosa: é muito ruim ver-se analfabeto.

E isso remete a outro aprendizado: comprar o básico. Parece simples: olhe as figuras… Mas são prateleiras e prateleiras cheias de imagens e símbolos desconhecidos. Leva-se um bom tempo para identificar um simples biscoito salgado. E, garanto, ele não será como você imaginava. Acostume-se com o diferente.

Andar nas ruas. O número de motonetas e bicicletas, com e sem motor, é inacreditável. É o meio de transporte mais popular por aqui, e elas têm prioridade absoluta sobre os carros e pedestres. Andam e estacionam nas calçadas, não respeitam sinalização, cruzam na contramão… Elas vêm por todos os lados!

Viver sem cartão de crédito: não será aceito. E, também, praticamente sem dinheiro em papel. Quase todo pagamento é feito com WeChat e Alipay — descobrir como usá-los, ter sempre o celular na mão e garantir que tenha carga. Sem ele, não é possível pegar ônibus, metrô, táxi, Didi, tomar água, comer, nada!

Aprender o básico, novamente. Perceber que o óbvio é outro, desse lado do planeta. Desafiar-se a repensar até as mínimas coisas. Esse é mais um dos encantos da China.

Marla A. Lansarin, março de 2026.

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