Osaka não tem um monumento que se possa chamar de imperdível. Para os aficionados por parques, há a Universal Studios, mas enfrentar horas em filas não estava nos nossos planos. A ideia, portanto, era conhecer o castelo e fazer um city tour: um dia e meio. A primeira caminhada pelas ruas no entorno do hotel nos levou a uma grande avenida, com calçadas largas e lojas de grifes famosas, cujas fachadas merecem admiração. Mas foi quando anoiteceu que descobrimos os encantos da cidade.
Em Osaka, os luminosos se refletem nas águas do canal Dōtonbori, um dentre as dezenas de canais e ramificações que lhe conferem identidade. Esse não é apenas um canal: tornou-se um dos centros da vida noturna da cidade. À noite, as mesas nas margens, iluminadas pelos letreiros, oferecem conforto aos amigos que compartilham torres de chope. A descontração predomina no ambiente.
No encontro entre a avenida e o canal, uma cena chamou a atenção: as pessoas faziam fila para serem fotografadas exatamente no mesmo lugar e, no momento do clique, erguiam os braços, simulando a celebração de uma vitória. Olhando com mais cuidado, percebemos que, atrás delas, estava o Glico Running Man.
A Glico, uma empresa japonesa do ramo de alimentos, resolveu associar a sua marca à boa alimentação e à saúde, lá nos idos de 1935. Como resultado, instalou um luminoso em frente a um dos principais canais de Osaka, no qual aparecia um atleta, com os braços erguidos, cruzando a linha de chegada.
Esse seria apenas um detalhe insípido na história da publicidade, não fosse o fato de o Glico ter-se transformado no símbolo da cidade. Parece que, se você não tiver uma foto em frente ao corredor, não esteve em Osaka.
Caramba! Como pode? A cidade oferece dezenas de lugares lindos para se fotografar, mas está marcada pelo Glico; cá entre nós, um luminoso bem sem gracinha. Dizem que foi se consolidando por estar em Dōtonbori e, portanto, aparecer em qualquer documentário sobre a cidade, além de ter um traçado simples e fácil de lembrar. No entanto, foi o ritual de se fotografar imitando o Glico, adotado pelos turistas, que selou o destino do homenzinho. Cada turista que posta sua foto fortalece o cara. Chegou a um ponto em que muitas pessoas nem sabem que estão olhando para a propaganda de uma marca de alimentos.
O luminoso apenas ilustra. Pensando bem, há algo desse comportamento de manada em muitas coisas, dos cadeados nas pontes a fenômenos bem menos inocentes, como as quebradeiras que podem ocorrer quando multidões se reúnem. E, pior, ninguém é imune: eu também tirei a minha fotinho… Mas não ergui os braços!
Marla A. Lansarin, julho de 2026.




