O santuário fica muito próximo da estação, e percorremos poucos metros antes de avistar o torii vermelho-alaranjado, destacando-se contra o céu acinzentado, emoldurando um pavilhão de dois andares com um telhado imponente. O Fushimi Inari Shrine é um santuário xintoísta; não há Budas, mas sempre há torii, os tradicionais portais de madeira. Para aqueles que creem, atravessá-los é deixar o cotidiano para trás e ingressar em um espaço dedicado aos espíritos da natureza, os kami.
Atravessamos o torii e o Rōmon para ingressar no pátio. Próximo ao salão de orações, um professor passava instruções aos seus alunos. Chamou a atenção, na cena, a formalidade de suas vestimentas. No Brasil, provavelmente estariam usando calças jeans e tênis, quando não bermudas. Além disso, os estudantes escutavam o mestre com deferência: olhares fixos em seu rosto, na maior concentração, mesmo em meio a tantas pessoas e a uma enormidade de coisas para ver e fazer.
Não muito longe dali, um rapaz, usando uma vestimenta cerimonial, atendia os visitantes junto ao local de emissão dos goshuin, os selos caligráficos que se pode receber como recordação. Surpreendeu-nos encontrar tantos monges e ajudantes ainda muito jovens. Além disso, as pessoas em oração ou queimando incenso, em sua maioria, pareciam ter menos de cinquenta anos. Nas igrejas católicas do nosso país, observa-se o oposto. Interessante, não? Aparentemente os japoneses conseguem transmitir suas tradições às novas gerações, que ainda encontram espaço para a espiritualidade em suas vidas.
Passamos pelo Haiden, o salão de orações, e encontramos o famoso Senbon Torii, o corredor de mil torii, que serpenteia montanha acima. Na verdade, são bem mais de mil, doados para agradecer ou pedir proteção, em duas passagens paralelas, uma para subir e a outra para descer. Dizem que percorrê-lo proporciona paz e integração com a natureza, mas subimos cercados por pessoas, como se estivéssemos acompanhando uma procissão na qual os fiéis carregam celulares em lugar de velas e não há orações. No total, ida e volta, são quatro quilômetros, mas paramos ao completar o primeiro trecho. A chuva fina que prometia piorar, o grande número de pessoas e, principalmente, a percepção de que aquele caminho possuía uma profundidade religiosa que nos escapava nos fizeram retornar.
Havia um grande palco de madeira (kagura-den) onde ocorria uma cerimônia. Aos meus olhos, uma dança muito, muito lenta, pontuada por sinos e batidas espaçadas de tambor. A dança ritual (kagura) busca honrar e invocar os kami, e as mulheres que a executavam provavelmente eram sacerdotisas (miko). A lentidão pretende expressar reverência, autocontrole e solenidade, mas muitas pessoas assistiam às sacerdotisas com simples curiosidade e algum tédio. Fiquei pensando como seria ter curiosos observando a comunhão durante uma missa. Incômodo? Revoltante? Constrangedor? Como seria ter a sua fé transformada em espetáculo para turistas?
Marla A. Lansarin, Junho de 2026.







