Uma múmia me olha pelo espelho. Verdade! A fisioterapeuta insistiu em fazer taping no meu rosto. Nome chique para enrolar em um tipo de esparadrapo: só os olhos e a boca foram poupados. Uma gota de sangue rolou pelo canto do olho para dar um toque de terror. Onde mesmo estava minha cabeça quando me meti nessa? Era necessário. Aquelas bolsas de gordura nos cantos dos olhos estavam chamando muita atenção… De quem? Só minha, na certa. O procedimento é rápido e tranquilo, disseram. “Procedimento” — não cirurgia — porque o nome assusta. Bem, só posso dizer que o ritual é o mesmo: oito horas em jejum completo, uma hora e meia na fila para os papéis da internação e uma salinha para tirar toda a roupa, vestir uma linda bermuda sem fechamento, amarrada para a frente com uma corda, e uma camisola sexy. Por que será que uma pessoa sadia, que amarga apenas as dores comuns da idade, resolve causar danos à única parte do corpo que não doía? Está bem: a “pessoa” sou eu e tenho que cavar a resposta. Não foi uma decisão racional, é certo: não coloquei argumentos nas colunas dos prós e dos contras. Também haveria apenas um pró. Fui levada pela pressão da sociedade? Aquela cobrança muda pela eterna juventude, que eu combato com unhas, dentes e zilhões de argumentos? Em parte. Talvez colocando o foco no momento exato da decisão, a resposta apareça. Lembrei: bati o martelo quando vi as fotos do teste de maquiagem para o casamento. É isso — fui colocar incenso no altar da vaidade!
Vaidade, o pecado favorito do diabo.*
Marla A. Lansarin, agosto de 2026.
*Alusão ao filme O Advogado do Diabo (1997), estrelado por Al Pacino.

