Foi até o quarto pegar a mala guardada embaixo da cama. Escolheu a maior do conjunto. Essa deve servir; só está muito cheia de pó. Sem problemas. Foi em busca de um pequeno balde, onde colocou água, um pouco de álcool e uma colher de sopa de amaciante de roupas, só pelo perfume. Encontrou um pano quase sem uso e voltou para limpá-la. A despeito da ansiedade, queria fazer um bom trabalho.
Resolveu iniciar pela parte de dentro: primeiro o fundo. Quando nasceu, era um bebê bem feinho, tadinho. De fato, Raul nasceu todo enrugado e com o nariz achatado pelo parto difícil. Uma semana depois, no entanto, estava tão lindinho que era difícil parar de beijá-lo. No primeiro mês, acordava só para mamar e muito pouco chorava, mas, quando começaram as cólicas, era possível ouvir o berreiro lá do saguão do prédio.
Enxaguar o pano. Agora os elásticos e fechos, um a um. Era um bebê comilão e, quando completou um ano, surpreendentemente, adorava frutas ácidas. Todos se encantavam ao vê-lo colocando morangos inteiros na boca. Não engatinhou antes de caminhar. Um dia, simplesmente, andou.
Essa mala tem meia dúzia de bolsos e todas as costuras estão duras de pó! Demorou um pouco para falar e o pediatra disse que era falta de estímulo, por não ter outras crianças para brincar. Assim, após muita briga feia, ele foi matriculado em uma escolinha. Certeiro: em poucos meses o garoto estava falando até o que não devia.
Vou ter que remover as etiquetas que colaram por fora. Só raspando. A escolinha acabou sendo uma boa decisão. Agora, aos cinco anos, sabia contar em português e inglês, conhecia o alfabeto e escrevia o próprio nome. As mães dos coleguinhas sempre o convidavam para tudo. Esperto e curioso, não parava de perguntar. Sorriu ao lembrar tantas questões estapafúrdias. Por que a terra do vaso é mais preta que a terra do jardim? Onde moram as formigas? Quem sopra o vento? Por que as estrelas não caem? E as perguntas nunca paravam. A tia Janete vai morar aqui? O papai, onde vai? Por que ele tá tão brabo? Teu braço tá doendo? O teu olho ainda funciona? Seu guarda, me empresta o revólver? Decidiu usar o secador de cabelos, pois não havia tempo para colocá-la no sol.
Finalmente podia fazer a mala. Começou pelo cobertorzinho azul; o Raul não dormia sem ele. Também lembrou do caminhãozinho de coleção. Na sequência, com certa dificuldade, tirou o menino da cama e o posicionou sobre o cobertor da maneira mais confortável possível, usando o pequeno travesseiro para ajustar a posição do pescoço. Os elásticos, agora bem limpos, serviram para segurar o tronco. Deu-lhe um beijo na testa, fechou a mala e colocou o cadeado de segredo. Tudo pronto: vamos embora.
Marla A. Lansarin, Setembro de 2021.

