Colocou os dois caixotes lado a lado, cuidadosamente nivelados. Eram feitos para frutas, mas iriam aguentar. Abraçou o fogão na altura do forno e o ergueu com relativa facilidade, colocando-o sobre o suporte improvisado. Cuidou para que os pés de sustentação coincidissem com os cantos, a parte mais resistente das caixas. Então, olhou ao seu redor, localizando quatro banquinhos de madeira, enegrecidos pelo tempo: deveriam servir. Tirar o sofá do chão provocava uma pontada aguda nas costas que demorava para passar. Paciência; não quero ver choradeira esse ano. Ainda vinha cheiro de esgoto da bainha do sofá. O cheiro da humilhação.
Em setembro passado fora até o banco para entender o tal do Programa de Casas Populares e, após passar metade de uma manhã esperando, ficou sabendo que a renda mínima exigida era bem maior do que a sua. Popular, como? Ganhava mais ou menos como seus vizinhos e, então, descobriu que ninguém ali era povo. Pensou em fazer uma casinha no terreno do pai, que estava em um lugar alto.
Três passagens? Seis por dia? A empresa não pode arcar com esse custo extra.
Foi verificar o aluguel de um apartamento pequeno, a quatro quadras de distância. Fiador? Tá doido? Continuou procurando e, quando viu, julho chegou novamente trazendo as chuvas.
Pronto! Era o último pertence que necessitava afastar do chão. A TV iria com ele para o salão da igreja, se não tivesse outro jeito. O agente da Defesa Civil havia informado que teriam que deixar a casa. Diante do seu protesto mudo e das reclamações da mulher, o homem perguntou:
Todo ano a mesma coisa… por que não saíram daqui?
Marla A. Lansarin, Abril de 2021.

