Para amar um lugar — Peru

O lago Titicaca é habitado. Isso mesmo: pessoas vivem na superfície de suas águas, sobre plataformas flutuantes, construídas com camadas e mais camadas de junco (totora): são as ‘ilhas’ de Uros. Essas plataformas são relativamente pequenas e abrigam algumas famílias do povo uroaymara que, atualmente, vivem do turismo. A manutenção ‘do chão’ é uma tarefa permanente, pois é necessário substituir as camadas de totora que estão mais ao fundo, na mesma medida em que apodrecem. Andar nessa ilha é como caminhar sobre um colchão de espuma bem fofa.

Esse lago é a fronteira entre o Peru e a Bolívia, a quatro mil metros de altura. Do lado peruano está a cidade de Puno, que é pequena e charmosa, mas não mereceria uma linha, não fosse pela índole do seu povo. O lugar é muito bonito, mas foram as pessoas que transformaram o Peru em um dos meus lugares favoritos no mundo.

Chegamos a Puno durante um festival em que grupos musicais e de dança desfilam pelas ruas em homenagem à Virgem de Candelária. Pelo que entendi, cada bairro da cidade forma um grupo, com nome e cores próprios, os quais disputam entre si o título de campeão do ano. Para cada ano são confeccionados trajes multicoloridos e com muito brilho, usados por todos os integrantes, mas, em especial, por jovens bonitas.

Lembra algo? Sim, o nosso carnaval. No entanto, as roupas não são fantasias, no sentido de pretender representar um bicho ou um anjo, são roupas típicas do país, mas mais enfeitadas. A exceção é a dança dos demônios ou Diablada, na qual os integrantes usam máscaras de demônio, que são impressionantes. Além disso, não há nudez. O ritmo é diferente de tudo o que já escutei.

O desfile termina na praça central da cidade, onde são montadas arquibancadas, cujos lugares são disputadíssimos e ficamos sem um deles. Não escolhemos a época da nossa viagem, partimos quando foi possível e mal podíamos acreditar na sorte de estar lá, naquele momento, cercados pelo povo do lugar (e não por turistas), mergulhados em uma manifestação tão autêntica. Queríamos muito ver, sentir e entender. Para apreciar o desfile, pulávamos, espiando sobre as cabeças das pessoas que estavam em pé, como nós.

¡Señora! ¡Señora! ¡Por favor, venga aquí!

Da arquibancada, nos chamava uma mulher que estava sentada sobre um cobertor dobrado, ao lado de seu marido e filho. Acenava freneticamente e com um grande sorriso. Olhamos para cima, incrédulos. Nós? Por quê? Como chegar lá? Mas as pessoas que estavam acomodadas nos níveis mais baixos começaram a abrir espaço para que pudéssemos subir e não demonstravam qualquer contrariedade. Alguns senhores estendiam a mão para me apoiar. Quando chegamos à altura em que a família se encontrava, eles se levantaram e desdobraram o cobertor, aumentando seu comprimento e tornaram a sentar-se muito mais próximos uns dos outros e nos ofereceram os lugares que surgiram. Uma gentileza enorme, vinda de pessoas totalmente estranhas, que nunca nos haviam visto e nunca mais tornariam a ver.

Naquele momento, passei a amar o Peru.

Marla A. Lansarin, Abril de 2022.

Posts Similares