— Dona Margarida, se a senhora não me chamar três vezes na semana, não dô conta! A casa é muito grande.
A diarista — como é o nome dela mesmo? — está certa. Na prática, quatro andares: a garagem no subsolo; a sala de visitas, a cozinha e os quartos no nível da rua; no primeiro andar um salão de jogos e a biblioteca e, acima dela, o sótão. Planejamos para três crianças, e o salão fazia todo sentido. Biblioteca? Bem… hoje ela cabe em um Kindle, mas as meninas usavam a Barsa para fazer o dever de casa. Enciclopédia agora serve de enfeite. Na verdade, a manutenção sempre foi cara, se contar o jardim e a piscina. Só que, enquanto o Paulo era vivo, isso não foi problema. Agora é.
As gurias querem me tirar daqui: somaram tudo e disseram que não dá para pagar. Claro que dá! A… diarista vem só uma vez por semana, cobri a piscina e mando cortar a grama um mês sim, outro não. Ela só tem que limpar a cozinha e os quartos; meus joelhos não me levam nem para cima nem para baixo, mesmo. Certo, vez por outra escuto uns ratos lá no sótão. Eu resolvo: para o Natal, mando dedetizar.
Hora do almoço: pegar a marmita da geladeira, colocar no micro e levar para a frente da TV. É o jeito. Sentar à mesa, sozinha, nem pensar! Essa comidinha até que é boa; esse molhinho pede um naco de pão. Cadê o pão? As gurias compraram um monte, não tem como eu ter comido tudo, tem? Paciência, um biscoitinho vai bem.
— Mãe, a senhora comeu todo o pão de sanduíche em dois dias? Tá sabendo que faz mal para a diabetes, não? E o queijo? Vou no super e passo por aí antes do jantar.
Ah, tá! Depois de velha, levo bronca por comida… deve ser vingança da vida: até ela fazer doze anos, cada refeição era uma briga: nunca queria comer. Credo! Não tem chimia também! Essa não vou nem pedir.
Graças a Deus, domingo. Vem todo mundo pra cá. Será que eu consigo fazer um bolo sem me queimar? Adoro domingos: falação, gritaria de criança, vida. Durante a semana, só os ratos do sótão. Vou acabar fazendo amizade com eles. Por sorte, convenci o tal do doutor a me dar uma receita de remédio para dormir. O sono fica tão pesado que esqueço tudo. O Paulo vem me espiar pela porta logo que eu durmo; não consigo acordar. Será que está chegando a hora dele vir me buscar?
No fim, quem veio me buscar foi a mais velha, mas para me levar para a casa dela, por um tempo. Elas disseram que eu não como direito, falo sozinha e a casa está um lixo. Eu implorei para ficar. Não comi todo aquele pão com chimia e meço a diabetes todo dia.
Grande mudança! Agora, em lugar de ficar sozinha na minha casa, fico sozinha aqui nesse apartamentinho. Eles trabalham e levam as crianças para a creche. E eu, zanzando do quarto para a sala e vice-versa. Bom… de noite melhorou: companhia para o jantar e o Paulo não vem mais me visitar. Acho que desistiu de me levar. Shhh! O que eles estão cochichando lá na cozinha?
—O corretor falou que tem uma cama completamente montada no sótão; encontraram uma telha solta e o alçapão aberto! Havia, também, sobras de comida, pratos e talheres. Instalaram uma câmera e pegaram o cara! Há quanto tempo ele estava lá?
Marla A. Lansarin, Julho de 2026.

