Haroldo, o hamster

Acordava cedinho, tomava banho de areia, comia sua ração e ia direto para a roda. Corria durante algumas horas, parava um pouquinho para matar a fome e voltava a correr. Ao anoitecer, jogava-se em sua caminha de serragem e ficava olhando o brilho da TV pela fresta das grades, mas não por muito tempo, pois caía no sono de pura exaustão. No dia seguinte, tudo novamente. Na semana seguinte e no mês seguinte, também.

Algumas vezes, enquanto saboreava sua refeição, ficava tentando entender por que corria tanto e nunca saía do lugar — em vão. Nessas ocasiões, pensava em parar. Mas, se eu não correr, vou fazer o quê? Como vou preencher o meu tempo? E se a Duda ficar triste e não colocar mais ração na minha gaiola? Assim, assolado pelas dúvidas, voltava a correr, e o cansaço o ajudava a parar de pensar.

Um dia, não viu o brilho da TV. Estranho, cadê todo mundo? Sem outra opção além de recostar a cabeça na borda do bebedouro e ficar olhando para fora, reparou em uns bichinhos pretos, minúsculos, que entravam por um canto e se deslocavam em direção à sua ração. Três tapas, e acabo com eles!

Mas não: quando aniquilava um grupo, um número ainda maior surgia e, de pedacinho em pedacinho, os bichinhos roubavam sua comida. Começou a sentir uma coceira na barriga e, ao olhar para baixo, descobriu-se coberto por aqueles serezinhos desprezíveis. Correu para a roda e a girou o mais rápido que pôde, mas de nada adiantou. Saltou dela e começou a correr desesperadamente pela gaiola, batendo inadvertidamente com o focinho na porta. Ela se abriu no mesmo instante, com a maior facilidade. Nunca esteve trancada?

Caiu diretamente sobre uma coisa áspera e peluda. Esfregou a barriga naquilo até se ver livre daqueles monstrinhos. Alívio! Mas já não era possível retornar para casa: ela estava invadida, e Duda havia sumido. Planejou arranjar um abrigo até que tudo voltasse ao normal.

Encontrou um cantinho ensolarado, com água por perto, mas teve de sair para procurar o que comer. Caminhou um pouco e sentiu um cheirinho delicioso, totalmente novo para ele. Resolveu segui-lo e deparou-se com uma coisa enorme e vermelha. Sem resistir, deu uma mordida. É branca por dentro, doce e suculenta! Resolveu arriscar e comeu até se fartar. Pesado, retornou ao seu cantinho e tirou um cochilo.

Acordou descansado e saciado, aquecido pelo sol. Como não podia correr na roda, foi explorar seu novo mundo. Que outras delícias vou encontrar? Bem que a Duda poderia não voltar.

Marla A. Lansarin, abril de 2021.

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