Nada será como antes

Um domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Milton Nascimento

Estamos com o pé nessa estrada e nada será como antes. Aqueles de nós que sobreviverem e tiverem dado atenção ao mundo não voltarão a ser o que eram.

Aprendemos novas maneiras de ver nossos irmãos; facetas até então desconhecidas. A negação é uma delas. Sabíamos que existia, mas ignorávamos sua força. Quem acreditaria, antes de tudo isso, que centenas de pessoas esclarecidas iriam se reunir, sem qualquer proteção contra uma morte horrenda, apenas para dançar? E que a polícia teria que salvá-las de si mesmas?

A enorme capacidade de adaptação foi outra descoberta. Em pouco tempo, já se falava que coisas boas do isolamento seriam incorporadas ao cotidiano pós-pandemia. O rompimento abrupto da rotina mostrou novas opções, e a humanidade aprendeu a apreciá-las.

Coisas simples, como horários escalonados para os diferentes segmentos econômicos, com o objetivo de evitar a lotação do transporte público, foram implementadas. Um ônibus lotado sempre incomodou, mas a proposição de uma nova rotina, aceita sem discussões intermináveis, só se tornou realidade pelo medo do vírus. Mas deveria ser mantida, não?

Apareceu a solidariedade em grande escala: indivíduos doando seu tempo e seu trabalho, empresas doando bens de consumo, como só se vê em momentos de crise. Ficou claro, também, que esse sentimento não tem fôlego para maratonas, pois as ações solidárias estão minguando.

Atentos ao que aconteceu com os nossos amigos do norte, quando trocaram Trump por Biden, testemunhamos o poder de uma liderança: não sobre o botão vermelho, mas sobre o comportamento das pessoas, apenas com palavras e exemplo.

Quando a chanceler alemã chorou diante dos microfones, entendi o sofrimento de um verdadeiro líder, que se sente responsável pelo que acontecerá com os seus patrícios e é obrigado a escolher entre dois caminhos difíceis. Decisão que, necessariamente, será baseada em valores pessoais, por mais conselhos que ouça ou estatísticas que leia.

A ideia de que as carreiras médicas eram escolhidas por pessoas com desejo de ajudar as outras sempre existiu, mas permanecia escondida atrás das brumas, como a ilha de Avalon. Naquele momento, tornou-se concreta. Há um grande número de soldados da medicina arriscando suas vidas no campo de batalha, não para matar, mas para salvar. Incrivelmente lindo de se ver, e a minha incompetência para ajudar dói nessa hora.

Que notícias me dão dos amigos? Ficou claro: a videoconferência ajuda, mas não aconchega, e os aplicativos dizem tudo, menos o que queremos saber. Começamos a procurar nossos amores só para verificar se estão bem, mesmo.

Passamos a notar e valorizar as pessoas que, diante do horror, conseguem pensar claramente e são capazes de enxergar alternativas pouco ou nada convencionais: são aquelas que resolvem os problemas e ensinam os demais a enfrentar ventania em qualquer direção.

Marla A. Lansarin, Março de 2021.

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