Talvez você tenha lido, nesta última semana, o grande sucesso que têm feito os voos para lugar nenhum. Isso mesmo: a aeronave parte, voa entre uma hora e meia e sete horas e entrega os passageiros no aeroporto do qual partiu. Algumas companhias aéreas chamam-nos de “voos cênicos”, para disfarçar um pouco, mas outras os batizaram com o mesmo título desta crônica. São a tendência do momento, especialmente na Ásia e na Austrália. Alguns são temáticos, como o da EVA Airways, dedicado à Hello Kitty.& As revistas de turismo justificam o serviço pela enorme saudade de voar que muitas pessoas sentem. Os voos estão saindo lotados.
Quem já entrou em um avião sabe que aquela janelinha, compartilhada com mais duas pessoas, simplesmente não pode ser chamada de “cênica” — ponto para a honestidade das companhias que escancararam a realidade. O que leva uma pessoa a passar por toda a burocracia de um aeroporto, ainda maior em tempos de pandemia, embarcar, ficar algumas horas sentada e voltar para casa? O voo, em si, pelo conforto, pela comida ou pela música, não pode ser considerado prazeroso a ponto de deixar saudades, mesmo que você possa pagar pela primeira classe, pois, nesse caso, já terá experimentado refeições muito melhores.
Quase caí na tentação da resposta fácil, caricata; aquela que busca no exibicionismo ou na estupidez as explicações para todos os males. Não! O mais simples dos seres humanos é mais complexo do que isso.
No caso do voo da Hello Kitty, as crianças são uma parte da resposta. Ei, meu amor, vamos comemorar o Dia das Crianças em um avião? Se a menina nunca voou, você vira herói na hora, desde que o voo seja curto. Mas esse é apenas um dos programas, dentre vários que são oferecidos, e a pergunta permanece. Devem estar organizando um congresso de psicanálise dedicado ao tema, mas me atrevo a oferecer uma pista.
As pessoas querem sonhar.
Não é disso que é feito o voo de ida das férias? De expectativa? Não é usual passarmos o tempo de voo lendo o nosso guia de viagem? Antevendo todos os lugares que vamos conhecer, saboreando as comidas exóticas que nos aguardam? É disso que os passageiros dos voos para lugar nenhum estão sentindo saudades: do direito de sonhar.
Marla A. Lansarin, outubro de 2020.
& https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2020/09/23/aereas-lancam-voos-para-lugar-nenhum-na-pandemia-e-eles-estao-lotados.htm (acesso em 12/10/2020).
