Os moradores do prédio vizinho relataram que uma grande quantidade de fumaça estava saindo por uma janela dos fundos do décimo andar. Os bombeiros estavam parados na entrada do edifício, diante das grades cerradas. Tratava-se de uma pequena unidade, enviada para verificar a veracidade da denúncia, que não dispunha de qualquer equipamento pesado. O plano era simples: ir até o local, verificar se a fumaça era apenas de Jimo Fumegante e, se necessário, chamar a equipe principal; bastava que o vigia do prédio permitisse a entrada. Os bombeiros já haviam relatado a denúncia, mostrado suas identidades e estavam uniformizados, mas o homem relutava.
— Cadê o caminhão vermelho?
— Só vem quando chamado, mas o carro também tá identificado, olha lá.
— É, tá fedendo a fumaça. Vocês ligaram pro patrão?
— Nosso trabalho é ver a fumaça. Não sei nada de patrão.
— Só posso abrir com ordem do patrão. Tá escrito no contrato.
— É bem rápido: a gente sobe, espia e vai embora. O homem nem fica sabendo.
— Ele não disse que podia abrir pra bombeiro.
— Esse tipo de coisa não se diz. É caso de segurança!
— No contrato tá escrito que não pode fazer diferente pra ninguém. Só com autorização.
— Meu amigo, pensa bem: e se for fogo, de verdade, e tu mandar a gente embora? Pode morrer alguém, né?
— Aí não é culpa minha. É do cara que escreveu o contrato.
Nesse momento, o prédio inteiro tremeu com um grande estrondo e o porteiro, pálido com o susto, tomou sua decisão.
— Bom, já que é assim, vô ligá pro patrão.
Os bombeiros correram até o carro para chamar a equipe. Duas, na verdade. Uma só não daria mais conta do fogo.
Marla A. Lansarin, Outubro de 2020.
