Realidade Virtual

Com o início da quarentena, os comentaristas e alguns âncoras passaram a realizar seu trabalho diretamente de suas casas. Certo; mas o que poderia aparecer para o público? Além dos quesitos de segurança, era preciso transmitir uma imagem profissional e, camas ao fundo, nem pensar. Se fosse na sala, a família ficaria prisioneira ou o cachorro apareceria para fazer uma ponta. Tinha que ser um lugar pelo qual os outros moradores não circulassem e onde as necessárias adaptações não gerassem muitas reclamações: o canto da leitura. Foi assim que as estantes com livros começaram a fazer parte do cenário dos telejornais. Uns poucos livros, com alguns objetos decorativos, ou muitos exemplares, a depender da especialidade e da preferência pessoal do jornalista. Tudo ia indo bem até que alguém decidiu que, quanto mais livros, mais inteligente. Estava dada a largada para a competição das bibliotecas.

Do outro lado das câmeras, as pessoas perceberam o cenário como uma estética própria da área. Afinal, também faziam lives e necessitavam de um guia de conduta. Só que, em tempos de maratonar séries, quem tem uma biblioteca dentro de casa? Então, a internet (sempre ela) passou a oferecer a solução: cobrir o fundo da transmissão com um painel contendo a foto, em tamanho real, de uma biblioteca — e das grandes! Feito! Bastava aguardar a entrega para ficar instruído. Aproveite e compre um creme para ficar lindo também.

Hoje, aparência e realidade se confundem. É como se quem está no grupo de risco, mas fez uma plástica e aparenta ter quarenta anos, não tivesse dores nos joelhos ou diabetes e pudesse enganar o vírus. Foi nesse ambiente que prosperou a maquiagem dos números.

Há maquiadores que se limitam ao som das palavras. Dizer que morreram trezentas pessoas é mais impactante do que noticiar uma letalidade de 1%. Há, ainda, os que escondem o número desejado em uma enorme planilha, torcendo para que ninguém tenha paciência e astúcia para descobrir a informação. Mas o pior caso é o dos que omitem números. Colocam um outdoor enorme cobrindo a porta do cemitério. Simplesmente não informam e pronto: ninguém morreu.

O que mais chama a atenção, no entanto, é o número de pessoas que, inconscientemente, prefere assim. Escolhem acreditar no remédio milagroso, ou que existe um grupo tentando tomar o poder, ou qualquer outra coisa, desde que não seja necessário olhar para a ferida. Diante de uma realidade dura, preferem o outdoor.

Marla A. Lansarin, Junho de 2020.

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